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Abrigo de Montanha

Hoje em dia, o ser humano tem uma certa dificuldade em distinguir, aquilo que é essencial e imprescindível, para uma vivência em harmonia com o planeta terra e toda a sua natureza.

A dificuldade parece mesmo residir no exercício de determinação do ponto mínimo necessário para um máximo de felicidade. É certo e sabido que, os momentos de felicidade refletem num primeiro momento uma busca de tal estado e posteriormente um conjunto de fatores que se correlacionam e o propiciam. Esses fatores podem de alguma forma divergir de pessoa para pessoa. Mas será que divergem assim tanto de pessoa para pessoa? É facilmente percetível que determinados parâmetros parecem ser transversais a qualquer ser humano, e até mesmo, para qualquer ser vivo! A natureza é um elemento chave para o bem-estar e felicidade de todo e qualquer ser vivo. No raciocínio de resolução desse exercício arquitetónico entende-se, que um espaço, não deve existir simplesmente porque se pode dispor de uma aparente massa de ar disponível, que pode e deve antes demais ser ocupada pela natureza, o bem essencial de sobrevivência e até de felicidade de todos os seres vivos.

[ A Poética ] O exercício pressupunha uma proposta de intervenção contida e no contexto de um conjunto de moinhos de água inseridos num núcleo museulógico criado precisamente com a valorização história desses elementos arquitetónicos. O ser humano, noutros tempos, e com astúcia, criou ferramentas que respondiam às suas necessidades mais básicas, as necessidades fisiológicas. Hoje em dia, a introspecção, a procura de felicidade, o sossego, o ter tempo, tornaram-se quase numa necessidade básica, dado no presente tempo, estarmos constantemente assoberbados de informação de diversos canais, de estímulos exteriores que não nos deixam tantas vezes aproveitar as coisas simples, e todos sabemos como são essas as que verdadeiramente nos fazem mais felizes. É por isso importante que o ser humano possa ter hoje ferramentas que, como os moinhos, desempenham uma função clara e essencial no seu contexto. O ser humano de outro tempo, através da água, fez girar o seu moinho pela mó. O ser humano deste tempo, precisará dele próprio fazer girar o seu moinho, para recuperar a natureza.

Será importante por isso que estes espaços sejam multifuncionais, mas também que lhes seja imputada até uma plurifuncionalidade. Todo o espaço conta, e tem de fazer por merecer o ar que ocupa, tratando-se constantemente de uma forma de respeito pela natureza, e por isso, pelo próprio ser humano e pela própria arquitetura. A distribuição em planta da proposta adopta uma circulação exterior, contrária ao tradicional labirinto de corredores e apelando até que a própria circulação do ser humano fizesse representar a circulação da água que fazia girar a mó, também circular, que moía o milho. Com essa opção, a valorização da parede exterior ganha destaque, na medida em que, uma vez desimpedida, atrai o ocupante voltando-se para o exterior, e enaltecendo a sua relação de admiração com a natureza. A materialidade é reduzida ao mínimo possível negando-se por isso qualquer sentido de extravagância e de usurpação da natureza, aliás a sua determinação procurou partir precisamente da utilização de materiais naturais, existentes na natureza e que inclusivamente se renovam nela, pelo que aqueles que são processados ou artificiais são reduzidos ao máximo, para se equilibrar precisamente aquela relação óptima.