Categorias
[ Arquitectura ] [ Ensaio Académico ]

A Escala da Imaginação

A imaginação não deve ter limites na fase de criação mais primordial. A ideia é a identidade própria de qualquer projeto, de qualquer obra de arte. A ideia é a personalidade e o elemento distintivo de qualquer projeto. A criatividade encontra-se à espreita em todos os segundos, em todas as coisas, em todos os objetos, em todo o conjunto particular de um momento, de qualquer momento. O despertar para a criatividade tem de ser quase constante, inicialmente como um exercício de procura, que depois de se tornar um hábito, se torna inato a qualquer ser humano. A predisposição para qualquer coisa, nasce da vontade, e essa vontade tem de ter uma entrega total. Um professor no curso de arquitetura na primeira aula perguntou-nos qual era a nossa religião. A pergunta deixou-nos surpreendidos por se apresentar de forma tão desconexa.

Houve um momento prolongado de silêncio geral, a pergunta voltou a repetir-se, e por todo o contexto, pelo desafio, e pela lógica da mensagem que se poderia querer transmitida na unidade curricular de Teoria da Arquitetura I, ocorreu-me que a resposta aquela pergunta fosse apenas: “Sim! A Arquitetura!”. Apesar deste exercício nos fazer lembrar até um pouco fenómenos de pareidolia, na verdade, trata-se de um exercício quase contrário, uma vez que parte do próprio ser humano a ação de forçar a criação de vida, em algo que até não sugestiona à partida ou lhe atribuí estímulo direto para uma qualquer metáfora. A passagem de qualquer devaneio para a realidade, sendo-lhe atribuída uma função para qualquer ser vivos e a natureza, é uma característica intrínseca e indissociável da própria definição de arquitetura.

Categorias
[ Arquitectura ] [ Ensaio Académico ]

Abrigo de Montanha

A dificuldade parece mesmo residir no exercício de determinação do ponto mínimo necessário para um máximo de felicidade. É certo e sabido que, os momentos de felicidade refletem num primeiro momento uma busca de tal estado e posteriormente um conjunto de fatores que se correlacionam e o propiciam. Esses fatores podem de alguma forma divergir de pessoa para pessoa. Mas será que divergem assim tanto de pessoa para pessoa? É facilmente percetível que determinados parâmetros parecem ser transversais a qualquer ser humano, e até mesmo, para qualquer ser vivo! A natureza é um elemento chave para o bem-estar e felicidade de todo e qualquer ser vivo. No raciocínio de resolução desse exercício arquitetónico entende-se, que um espaço, não deve existir simplesmente porque se pode dispor de uma aparente massa de ar disponível, que pode e deve antes demais ser ocupada pela natureza, o bem essencial de sobrevivência e até de felicidade de todos os seres vivos.

[ A Poética ] O exercício pressupunha uma proposta de intervenção contida e no contexto de um conjunto de moinhos de água inseridos num núcleo museulógico criado precisamente com a valorização história desses elementos arquitetónicos. O ser humano, noutros tempos, e com astúcia, criou ferramentas que respondiam às suas necessidades mais básicas, as necessidades fisiológicas. Hoje em dia, a introspecção, a procura de felicidade, o sossego, o ter tempo, tornaram-se quase numa necessidade básica, dado no presente tempo, estarmos constantemente assoberbados de informação de diversos canais, de estímulos exteriores que não nos deixam tantas vezes aproveitar as coisas simples, e todos sabemos como são essas as que verdadeiramente nos fazem mais felizes. É por isso importante que o ser humano possa ter hoje ferramentas que, como os moinhos, desempenham uma função clara e essencial no seu contexto. O ser humano de outro tempo, através da água, fez girar o seu moinho pela mó. O ser humano deste tempo, precisará dele próprio fazer girar o seu moinho, para recuperar a natureza.

Será importante por isso que estes espaços sejam multifuncionais, mas também que lhes seja imputada até uma plurifuncionalidade. Todo o espaço conta, e tem de fazer por merecer o ar que ocupa, tratando-se constantemente de uma forma de respeito pela natureza, e por isso, pelo próprio ser humano e pela própria arquitetura. A distribuição em planta da proposta adopta uma circulação exterior, contrária ao tradicional labirinto de corredores e apelando até que a própria circulação do ser humano fizesse representar a circulação da água que fazia girar a mó, também circular, que moía o milho. Com essa opção, a valorização da parede exterior ganha destaque, na medida em que, uma vez desimpedida, atrai o ocupante voltando-se para o exterior, e enaltecendo a sua relação de admiração com a natureza. A materialidade é reduzida ao mínimo possível negando-se por isso qualquer sentido de extravagância e de usurpação da natureza, aliás a sua determinação procurou partir precisamente da utilização de materiais naturais, existentes na natureza e que inclusivamente se renovam nela, pelo que aqueles que são processados ou artificiais são reduzidos ao máximo, para se equilibrar precisamente aquela relação óptima.

Categorias
[ Arquitectura ] [ Viagem ]

A Cidade da Cultura da Galiza

Um de entre muitos dos prazeres de viver no Norte de Portugal é inevitavelmente a proximidade a Espanha. A região autónoma da Galiza, até talvez pela própria geografia, funciona para os nortenhos como quase uma verdadeira extensão do Minho, com o acréscimo de se poderem aliar diferentes experiências e regalias da própria cultura espanhola. É com esse privilégio que, a apenas duas horas de carro de Viana do Castelo, se consegue chegar à capital da Galiza, a cidade de Santiago de Compostela e, é precisamente ainda a efetuar-se o acesso à cidade que se descobre ao longe, uma grande extensão de paisagem maioritariamente de cor clara em contraste com as cores de uma montanha, quase se assemelhando a uma pedreira. Essa montanha trata-se do Monte Gaiás e nele encontra-se o título deste artigo, a Cidade da Cultura da Galiza.

Idealizada pelo arquitecto americano Peter Eisenman, que ganhou o concurso internacional de arquitectura lançado em 1999 pela Junta da Galiza com um programa definido para a realização de um museu, uma biblioteca e espaços de espetáculos, Eisenman projectou seis edifícios concebidos em três pares: o museu da Galiza e o centro de arte internacional, a biblioteca da Galiza e o arquivo e, um teatro musical e um centro para a inovação cultural. O complexo ainda se encontra a em fase de construção, possuindo quatro desses edifícios já concluídos e em uso. O arquitecto Peter Eisenman, para além dessa formação, é também doutorado em Filosofia, e a verdade é que depois de se saber isso, quando se começa a estudar o seu estilo e as suas obras, essas influências sobressaem. A sua obra descreve-se geralmente como caracterizada pelo desconstrutivismo e pelo seu interesse pelos signos, símbolos e processos significação. Peter Eisenman afirma que a sua arquitectura…

Trata-se de interromper qualquer comunicação e situar dentro da própria arquitectura um dispositivo que faz com que a pessoa reaja de forma emocional, física e intelectual. Sem representação. A minha arquitectura não significa nada. Mas a experiência é outra coisa.

Peter Eisenman sobre o seu significado de arquitectura.

E a verdade é que, presenciando a Cidade da Cultura da Galiza, e lendo depois essa sua descrição, aquilo que se consegue afirmar é que o seu propósito foi efectivamente conseguido.

fotografia de eisenmanarchitects.com

A complexidade e multiplicidade de soluções presentes é tal que, assim que se entra dentro de um dos edifícios, os panos que fazem as fachadas exteriores, pelo lado interior parecem uma fachada completamente diferente. Para além disso, verifica-se quase sempre um segundo pano interior com uma estereotomia diferente criando a sensação da quase existência de um novo edifício, dentro do edifício da casca exterior. A heterogeneidade da relação entre formas curvilíneas e rectas, bem como a irreverência de alinhamentos e inclinações é tal que, se entende logo à partida que não existe um metro quadrado igual em todos os edifícios que, com a envolvente ocupam uma intervenção de 141.800 metros quadrados. Estar na Cidade da Cultura da Galiza, no exterior ou no interior de qualquer um dos edifícios, significa ter-se a constante sensação de se ficar imerso em diferentes estímulos, de todo o género e forma, e de serem tantos que não se conseguem absorver e processar todos. Este facto faz com que qualquer visitante tenha vontade de lá voltar, para poder ver mais, mais pormenores, sentir mais coisas diferentes, experimentar mais perspectivas diferentes e aliar a tudo isso ainda os eventos culturais, artísticos e as constantes exposições. Quando nós visitamos pudemos ver exposições de arte e uma exposição sobre “Cinema e Emoções, Uma Viagem à Infância”.

Mas deste complexo cultural, não se deve apenas particularizar os seus edifícios, mas também realçar os arranjos exteriores que revelam harmonias com jardins cuidados de plantações nativas da região da Galiza, e até mesmo, um lago e jardins literários que servem também de casa a várias espécies de animais. Aqui, não falta o que fazer, experimentar, ver e sentir. A única coisa que falta é mesmo poder desligar o botão do tempo para se poder apreciar todos os detalhes e pormenores.

Algumas fotografias da nossa visita