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Casa Metafísica

A inspiração deste exercício de criação formal, neste caso começou pela obra ” Caja metafísica por conjunción de dos triedros, 1959 ” do artista Jorge Oteiza. Qualquer que seja a obra artística em perceção, a sua utilização como fonte de contaminação, carece inevitavelmente da sua compreensão, ou seja, na verdade da interpretação da sua linguagem própria.

Hoje em dia tudo deveria ser pensado para o conceito metafísico, elevando-se toda e qualquer gesto, objecto, acção, movimento, ou seja, no fundo, fala-se aqui de qualquer coisa que manifeste necessidade de ato humano.

” O caos é uma ordem por decifrar. “

Livro dos Contrários e Maria da Paz para Tertuliano Máximo Afonso no Livro “O Homem Duplicado” de José Saramago

A linguagem é todo e qualquer sistema inteligente de comunicação coerente, e é o mecanismo mais imprescindível para qualquer ser vivo conviver com pelo menos um ou mais indivíduos da sua própria espécie ou mesmo de espécies distintas.

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A Escala da Imaginação

A imaginação não deve ter limites na fase de criação mais primordial. A ideia é a identidade própria de qualquer projeto, de qualquer obra de arte. A ideia é a personalidade e o elemento distintivo de qualquer projeto. A criatividade encontra-se à espreita em todos os segundos, em todas as coisas, em todos os objetos, em todo o conjunto particular de um momento, de qualquer momento. O despertar para a criatividade tem de ser quase constante, inicialmente como um exercício de procura, que depois de se tornar um hábito, se torna inato a qualquer ser humano. A predisposição para qualquer coisa, nasce da vontade, e essa vontade tem de ter uma entrega total. Um professor no curso de arquitetura na primeira aula perguntou-nos qual era a nossa religião. A pergunta deixou-nos surpreendidos por se apresentar de forma tão desconexa.

Houve um momento prolongado de silêncio geral, a pergunta voltou a repetir-se, e por todo o contexto, pelo desafio, e pela lógica da mensagem que se poderia querer transmitida na unidade curricular de Teoria da Arquitetura I, ocorreu-me que a resposta aquela pergunta fosse apenas: “Sim! A Arquitetura!”. Apesar deste exercício nos fazer lembrar até um pouco fenómenos de pareidolia, na verdade, trata-se de um exercício quase contrário, uma vez que parte do próprio ser humano a ação de forçar a criação de vida, em algo que até não sugestiona à partida ou lhe atribuí estímulo direto para uma qualquer metáfora. A passagem de qualquer devaneio para a realidade, sendo-lhe atribuída uma função para qualquer ser vivos e a natureza, é uma característica intrínseca e indissociável da própria definição de arquitetura.

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Abrigo de Montanha

A dificuldade parece mesmo residir no exercício de determinação do ponto mínimo necessário para um máximo de felicidade. É certo e sabido que, os momentos de felicidade refletem num primeiro momento uma busca de tal estado e posteriormente um conjunto de fatores que se correlacionam e o propiciam. Esses fatores podem de alguma forma divergir de pessoa para pessoa. Mas será que divergem assim tanto de pessoa para pessoa? É facilmente percetível que determinados parâmetros parecem ser transversais a qualquer ser humano, e até mesmo, para qualquer ser vivo! A natureza é um elemento chave para o bem-estar e felicidade de todo e qualquer ser vivo. No raciocínio de resolução desse exercício arquitetónico entende-se, que um espaço, não deve existir simplesmente porque se pode dispor de uma aparente massa de ar disponível, que pode e deve antes demais ser ocupada pela natureza, o bem essencial de sobrevivência e até de felicidade de todos os seres vivos.

[ A Poética ] O exercício pressupunha uma proposta de intervenção contida e no contexto de um conjunto de moinhos de água inseridos num núcleo museulógico criado precisamente com a valorização história desses elementos arquitetónicos. O ser humano, noutros tempos, e com astúcia, criou ferramentas que respondiam às suas necessidades mais básicas, as necessidades fisiológicas. Hoje em dia, a introspecção, a procura de felicidade, o sossego, o ter tempo, tornaram-se quase numa necessidade básica, dado no presente tempo, estarmos constantemente assoberbados de informação de diversos canais, de estímulos exteriores que não nos deixam tantas vezes aproveitar as coisas simples, e todos sabemos como são essas as que verdadeiramente nos fazem mais felizes. É por isso importante que o ser humano possa ter hoje ferramentas que, como os moinhos, desempenham uma função clara e essencial no seu contexto. O ser humano de outro tempo, através da água, fez girar o seu moinho pela mó. O ser humano deste tempo, precisará dele próprio fazer girar o seu moinho, para recuperar a natureza.

Será importante por isso que estes espaços sejam multifuncionais, mas também que lhes seja imputada até uma plurifuncionalidade. Todo o espaço conta, e tem de fazer por merecer o ar que ocupa, tratando-se constantemente de uma forma de respeito pela natureza, e por isso, pelo próprio ser humano e pela própria arquitetura. A distribuição em planta da proposta adopta uma circulação exterior, contrária ao tradicional labirinto de corredores e apelando até que a própria circulação do ser humano fizesse representar a circulação da água que fazia girar a mó, também circular, que moía o milho. Com essa opção, a valorização da parede exterior ganha destaque, na medida em que, uma vez desimpedida, atrai o ocupante voltando-se para o exterior, e enaltecendo a sua relação de admiração com a natureza. A materialidade é reduzida ao mínimo possível negando-se por isso qualquer sentido de extravagância e de usurpação da natureza, aliás a sua determinação procurou partir precisamente da utilização de materiais naturais, existentes na natureza e que inclusivamente se renovam nela, pelo que aqueles que são processados ou artificiais são reduzidos ao máximo, para se equilibrar precisamente aquela relação óptima.

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luz, contraste e reflexão

Reflexão sobre textos de Baeza, Utzon e Zumthor

Sobre o mundo que nos rodeia devemos procurar olhar, ver e observar. Não nos podemos apenas cingir a um desses atos, mas sim a todos eles, de todas as formas, de todas as perspetivas e até em tempos diferentes. A arquite(c)tura descreve-se segundo conceitos que muitas vezes são em simultâneo objetivos e subjetivos, e que são inclusive diferentes ao longo de um tempo até próximo, ou mesmo de um tempo longínquo. Na arquite(c)tura, a luz, é precisamente um desses conceitos. A luz tem a capacidade de transmitir uma variada quantidade de informação ao seu preceptor – recetor quando considerada, apenas numa fração de segundo. Mas, se considerarmos esse constituinte ao longo de frações temporais superiores, as suas combinações passam a ser múltiplas, e conjugáveis com dados adicionais. A luz tem a capacidade de moldar os espaços de forma diferente, pode criar diferentes experiências sensoriais num mesmo espaço, o que leva a que inevitavelmente se passem a viver esses espaços de forma distinta e variada. O reflexo visual, por exemplo, só existe como consequência da luz, em conjugação com diferentes planos e pela especificidade da sua materialização. Essa possível fenómeno de metamorfose, é algo que acrescenta versatilidade aos espaços e incita à criatividade dos seus ocupantes. Essa capacidade, a criatividade, deverá ser considerada transversal a todo o ser humano e, passar a ser uma necessidade irrefutável, de todo e qualquer ofício, manifestando-se em valor individual e grupal. A arquite(c)tura tem por isso um importante papel no controlo de diferentes variáveis que, proporcionem reações inconscientes num primeiro momento, mas que num momento seguinte, permita que se manifeste sob a forma consciente. O vídeo de 60 segundos que se apresenta compreende um conjunto de fotografias e vídeos que produzi no último ano e mas também alguns deles a serem efetuados exclusivamente para o presente vídeo. Nesse ensaio, por observação e experimentação, exploraram-se jogos de luz, contraste e reflexões que me permitiram ver o que me rodeia de uma forma alternativa e também muito experimental. O vídeo termina com um ser humano e uma ave, a circularem mutuamente num dia de muito nevoeiro. O facto desse ser humano se encontrar entre mim, e a fonte de luz, aliada à neblina existente daquele particular momento, proporcionou um contraste de luz que permitiu observar apenas aquele simples ato, sem outra qualquer distração que pudesse existir na envolvente, mas que naquele preciso momento era inexistente. Escolheu-se terminar precisamente com essa peça, por se demonstrar resumidamente como a luz, o contraste e a reflexão podem mudar tanto a sensação espacial e nos denotam elementos tão distintos, num mesmo sítio, em dias diferentes, a horas diferentes. Escolheu-se também terminar com essa peça, por se incluírem nessa representação, o ser humano, um animal e o poder da natureza.