Categorias
[ Livros ] [ Séries ]

Normal People

A realidade é sempre mais difícil de contar. Esta frase pode parecer logo à partida um contra-senso uma vez que, da realidade apenas se teria de a retratar, sem aparentemente ser necessária qualquer criatividade. Na verdade, julgo que pensar-se isso não poderia ser mais errado. Se percorrermos a nossa memória, mesmo quando se faz um filme ou uma série sobre factos verídicos, parece existir sempre uma tendência para puxar determinado lado, seja ele mais cómico, mais dramático, mais romântico, ou outro qualquer estilo até porque, como se costuma dizer, “quem conta um conto acrescenta um ponto”, e parece mesmo ser quase inevitável isso acontecer, não de forma propositada, mas como se existisse um constante íman a tentar puxar para algum desses lados, quer pelo nosso gosto pessoal e estilo, quer pela própria percepção inicial da história que foi contada antes de sermos nós a contá-la. Ora, mas se esse exercício parece ser muito exigente, o de se tentar fugir constantemente a esse íman de tendência, imaginemos então quando a história é fictícia e pretendemos contá-la de forma tão real e ajustada à realidade. Isto foi o que aconteceu precisamente nesta série que possuí apenas uma temporada de doze episódios e baseia-se no livro com o mesmo nome, escrito pela irlandesa Sally Rooney. Normal People é uma série extremamente crua mas muito bonita pela sua história sincera e até tão simples, que nos faz sentir que facilmente seríamos uma das personagens. A realidade é inevitavelmente mais crua que o mundo cinematográfico, mas o que torna esta história tão especial é precisamente esse facto, pois conseguimos facilmente criar empatia com a história sem necessitar de terem sido criadas caricaturas, nem recorrer a excessos visuais ou sonoros.

Depois de ter visto a série completa, fiz o exercício de pensar em como contaria a história de toda a série a alguém (não, não, não se preocupem aqui não somos spoilers, podem continuar a ler). A conclusão a que cheguei foi que na verdade daria aparentemente uma história pouco interessante, podendo até ser uma história comum a quem a conta e a quem a ouve. Mas então o que é que faz desta série tão particular e por isso especial? E a resposta revela-se na surpresa de se verificar que uma história simples e aparentemente banal, zelando por não possuir grandes truques, nos faz relacionar tanto com ela, transportando-nos para uma variedade de emoções que causam quase sempre até um certo desconforto e estranheza, tendo um tema que sobressai constantemente, a importância da comunicação e o reflexo da falta dela. Outra das características mais marcantes desta série são os silêncios que se assumem sem medo e os diálogos constrangidos que são tão facilmente projectados para o nosso dia a dia (mesmo que possam ser sobre outro tema qualquer).

Dito isto, e se ainda faltassem argumentos para se aventurarem, resta-me dizer-vos que, não fomos apenas nós que gostamos desta série, Normal People encontra-se nomeada para os Emmys na categoria de:
– Melhor Direcção de Série Limitada, Filme ou Drama Especial
– Melhor Roteiro de Série Limitada, Filme ou Drama Especial
– Melhor Ator Principal de Série Limitada ou Filme
– Melhor Casting para Série Limitada, Filme ou Especial

Categorias
[ Livros ] [ Receitas ]

O que é que a Bertrand e o Stroganoff têm em comum?

A livraria mais antiga do mundo tem uma belíssima revista literária e sucede que… é gratuita. A revista da Bertrand chama-se “Somos Livros” e, para além de ter uma impressão cuidada com a junção perfeita entre textura de papel, cores e design adequado ao seu propósito, está recheada de artigos interessantes, entrevistas e sugestões de livros para os amantes do mais fascinante objecto e para todos os gostos. Eu passo praticamente todos os dias por uma Livraria Bertrand e mesmo que passe por ela até mais do que uma vez por dia em nenhuma dessas vezes consigo deixar de virar o pescoço e parar a admirar, sendo que muitas dessas vezes acabo mesmo por não resistir e entrar. Mas, quando de uma dessas vezes vejo ao longe que os livreiros puseram a revista Somos Livros para os seus fãs e clientes poderem levar a minha passada meio que acelera no entusiasmo de ter a nova revista da Bertrand.

O exemplar mais recente que me fez escrever este artigo é o referente ao catálogo de verão 2020 e para além do fantástico conteúdo que tem, nas últimas páginas disponibiliza umas receitas culinárias. Não andará muito longe se dissermos com grande convicção que a probabilidade de uma pessoa ver pelo menos uma receita culinária por dia em algum lugar é muito grande, mas já que estamos a falar em probabilidade, também será muito preciso se dissermos que a probabilidade de executarmos alguma dessas receitas é bastante baixa. Tirando quando a receita demonstra logo à partida um imenso charme, com uma apresentação visual extremamente bonita e elegante e ainda por cima nos cativa com os seus ingredientes.

Foi isso que aconteceu com a receita de Stroganoff de Cogumelos da Bertrand, não resistimos e tivemos de a executar e a conclusão foi que é tão deliciosa que passou directamente para o livro das nossas receitas favoritas, escritas à mão no nosso caderno ultra restrito das melhores receitas do mundo. E agora, depois de tudo isto, só vos posso deixar aqui duas coisas: uma recomendação e a receita que acabei por renomear de Stroganoff da Bertrand.

Fiquem atentos à Revista Literária da Bertrand “Somos Livros”.

Receita de Stroganoff de Cogumelos da Bertrand

Ingredientes (2 pessoas)

– 400g de cogumelos variados
– 1 cebola roxa
– 2 dentes de alho
– 4 pés de salsa
– 1 colher de sopa de alcaparras baby
– 50 mL de uísque
– 80g de crème fraîche meio-gordo
– cebolinhas em picles qb
– cornichons em picles qb
– azeite qb
– paprica em especiaria qb
– pimenta-preta qb
– sal marinho qb

Para acompanhamento:
– arroz branco solto
– salada da época

Preparação

1. Prepare tudo antes de começar a cozinhar: arranje os cogumelos, partindo os maiores e deixando os mais pequenos inteiros, descasque a cebola e os dentes de alho e lamine tudo finamente. Pique grosseiramente as folhas de salsa e corte finamente os talos.

2. Coloque uma frigideira antiaderente grande em lume forte, adicione os cogumelos e a cebola, agite para acomodar tudo numa camada única e deixe grelhar, sem gordura, durante 5 minutos, mexendo com frequência. Regue com 1 colher de sopa de azeite e adicione o alho, as cebolas em picles, os cornichons, os talos de salsa e as alcaparras.

3. Ao fim de 30 minutos, verta o uísque, incline a frigideira com cuidado para flamejar ou pegue-lhe fogo com um fósforo longo (tenha atenção às sobrancelhas!) e, quando a chama se extinguir, adicione 1/4 de colher de chá de paprica, o crème fraîche e a salsa, e envolva tudo muito bem. Deslasse com um pouco de água a ferver para obter uma consistência suculenta e tempere a gosto com sal marinho e pimenta-preta.

4. Distribua pelos pratos, polvilhe com um pouco de paprica e sirva com arroz solto. Fica muito bem acompanhado também com uma salada da época.

Esperamos que gostem tanto quanto nós, mas para ser perfeito só mesmo executar esta receita numa cozinha criada por nós 😄.

nogueira.