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[ Entrevista ]

Paula Pereira

Paula Branco Pereira nasceu a 8 de Dezembro de 1978 em Viana do Castelo. Desde muito cedo que enveredou pelas Artes, caminho já percorrido pelo seu bisavô Eng. João Branco que estudou Belas-Artes em Bruxelas e se destacou na pintura, escultura, música e foi pioneiro da engenharia aeronáutica. Artista plástica, professora e investigadora, o seu percurso académico em Portugal passou por licenciatura e mestrados nas áreas de Artes Visuais e Comunicação Visual (ESEVC; UMinho; FBAUP; FPCEUP) e no estrangeiro pelos cursos de Arte Contemporânea (Sotheby’s, Nova Iorque), Arte e Investigação Artística – Estratégias em Museus (MOMA, Nova Iorque), Especialização em Arte Corporal – Tatuagem Artística (N&G, Barcelona). Recebeu também um diploma em Belas-Artes (Pintura) pela Academia Internacional Citta di Roma, Itália. Foi colaboradora do Museu de Artes Decorativas de Viana do Castelo (2007-2009) na promoção de cursos e workshops de desenho e pintura. Colabora pontualmente desde 2008 com o Departamento de Comunicação e Expressões Artísticas da ESEVC em workshops e palestras sobre arte, nomeadamente no Encontro Internacional das Artes. Em 2011 foi programadora e gestora de atividades artísticas com Rosetta Jallow em parceria com o Museu Carrickfergus na Irlanda e foi presidente de júri no “Painting Contest at Carrickfergus Museum”.

O seu trabalho tem sido destacado em vários livros e revistas. Salienta-se a publicação da sua obra na capa do livro Hidden Treasures, HTM, Londres, na Effetto Arte Magazine de Itália e mais recentemente no livro Arquitetura Contemporânea de José Pastor, edição da Câmara Municipal de Viana do Castelo. Recebeu mais de uma dezena de prémios nacionais e internacionais de arte. As suas mais recentes premiações foram atribuídas pela Fondazione Mazzullo, Sicília, Itália – prémio “Mazzullo”; pela Exhibeo Art Magazine, Canadá, à obra “Cusca 9” da coleção “O Boato”; e pela International Awards – London International Creative Competition à obra de videoarte “Vacuum”. É autora do painel de arte pública “Trajetórias de um Frei: Simbolismos e Micronarrativas” encomendado pela Câmara Municipal de Viana do Castelo. O mesmo é composto por 232 azulejos e está inserido no interior da fachada principal da escola Frei Bartolomeu dos Mártires. Participa em diversas exposições em Portugal e no estrangeiro, das quais se destacam “Square little worlds”, Jadite Galleries, Nova Iorque, com curadoria de Adelinda Allegreti; “The Art Take Away”, Espacio Gallery, Londres, com curadoria de Corrina Eastwood; XVIII Bienal de Cerveira “Uma Seleção” Universidade de Belas Artes de Pontevedra, Sala X, Espanha, com curadoria de Henrique Silva; “Miami Art Expo”, Nina Torres Fine Art Gallery, Miami, com curadoria de Pia Vang. As suas obras apresentam uma linguagem multidisciplinar que se desenvolve no desenho, pintura, escultura, instalação, vídeo, fotografia, performance e focam a expressão corporal, não apenas como centro conceptual, mas como instrumento de mediação/tensão contemporânea.


A Entrevista


Olá Paula, antes de iniciarmos a entrevista, deixa-me agradecer-te por teres aceite este desafio, é uma honra podermos conversar contigo.

Em que momento começaste a sentir que querias seguir o mundo das artes?

Sabes, é curioso eu não ter tido propriamente esse momento… Nunca me assemelhei à maioria dos meus colegas que, a um determinado ponto da vida estudantil, perceberam que queriam seguir esta área ou aquela, ou que sentiam especial apreço por determinadas profissões, etc. Para mim foi intrínseco. E, à parte do estereótipo do génio, senti a arte como algo que já fazia parte de mim desde sempre e nunca me questionei acerca disso ser ou não o meu futuro ou até a minha profissão, já o era e sempre foi. Posso, evidentemente, definir marcos nesse percurso, fases (talvez) que me foram instigando, desafiando, a nível pessoal e profissional. Talvez o primeiro desses marcos tenha sido logo no início da minha escolaridade, antes ainda das forças convergirem para a obtenção de correção ou para a atenção às regras a que a escola nos sujeita. Frequentava eu o segundo ano de escolaridade na escola de Monserrate, com a professora Fátima Morgado, quando esta sugeriu uma proposta. Fazermos desenhos e pinturas sobre o tema Carnaval, a fim de participar num concurso. O intuito era fazer o nosso melhor sobre o tema e ganhar a possibilidade de o nosso trabalho ser transposto para autocolantes que seriam vendidos ao nível do concelho. Demorei um pouco a iniciar o trabalho. A professora passava pelo meu lugar e via a folha em branco, admirando-se, pois sabia perfeitamente o quanto eu gostava de ter sempre um caderninho secreto para desenhar, com folhas brancas tipo “sebenta”, debaixo dos manuais de português ou matemática… Eu olhava para os outros trabalhos, dos meus colegas, e via que todos desenhavam e pintavam o mesmo, fitinhas, confetes, palhaços, máscaras, de preferência com as mesmas cores primárias. Para mim não era isso que fazia sentido naquele momento. Não que fosse diferente da maioria, apenas não senti necessidade de obedecer à correspondência direta entre o tema e o modo de representação esperado pelos demais. Foi então que comecei a desenhar (estilo linear) apenas um leão, com marcador preto em fundo branco, e colori com as cores ocre, siena natural e siena queimada. Essas cores, faziam parte de um conjunto de 60 marcadores que os meus pais me tinham oferecido, na esperança que eu deixasse de pintar absolutamente tudo de roxo… (essa é mais uma história [risos]). Bem, apesar de ter sido a vencedora do tal concurso, a vitória foi amarga no âmbito das minhas amizades na turma. Todos estavam revoltados com o facto de um simples leão, ainda por cima sem qualquer tipo de adorno carnavalesco, ter saído vencedor. O meu desenho foi aí apelidado pelos meus colegas de horroroso, feio, de leão ferrugem, etc… Felizmente, eu estava tão segura de que era aquele trabalho que para mim fazia sentido que pouco liguei às considerações alheias. Guardo hoje em dia esta história como, talvez, o primeiro marco de legitimação da minha forma de ver e exprimir.

Qual foi a sala de exposições em que mais gostaste de apresentar obras tuas?

Houve várias, mas a Casa Batlló em Barcelona foi especial, apesar de ser uma exposição coletiva. Para mim, todos os edifícios desenhados por Gaudi são de uma peculiar visão artística. Nesse sentido, senti uma partilha muito grande num espaço tão diferente do comum. Cada artista que participou juntamente comigo naquela exposição, com as suas idiossincrasias e imperfeições, parecia pertencer àquele lugar. Todas as leituras do mesmo, visíveis na grande diversidade de obras expostas, pareciam trabalhar a ideia de história e reinventar e desconstruir a própria memória daquele edifício tão especial. Nesta exposição, recebemos no primeiro dia de abertura ao público cerca de 9 mil visitantes, o que permitiu divulgar o meu trabalho de uma forma mais ampla. Na altura tinha acabado de receber o prémio da HTM Magazine de Londres com a obra “Colour my brain” que acabou por ser capa do livro “Hidden Treasures”. Essa obra fazia parte de uma coleção de experimentos que produzi na época e que tratavam de relações de poder/mulher. Estas traduziam-se em abordagens de escala e, em especial, em relações de contraste de cor. Os diversos elementos que compunham cada peça faziam parte de um todo que se apresentava ao leitor que os descobrisse, à semelhança do trabalho de Gaudi.

O que é que te inspira mais e te impulsiona a criar novas obras? 

A minha inspiração surge constantemente a toda a hora, em qualquer lugar, das imagens e das pessoas na rua, das conversas dos outros, da sociedade, dos meus problemas pessoais, às vezes até dos mosaicos marmoreados da casa de banho… Ora são flashes repentinos, ora são ideias que vou maturando aos poucos, mas surgem sempre naturalmente, sem forçar. Vou registando coisas num caderno e quando tenho ideias más coloco-as ao serviço da reflexão e da produção de melhores ideias.

Fotografia de Paula Pereira

Enquanto estás a criar qual é a importância do espaço/divisão onde te encontras e quais são as características a que dás mais importância?

Sou uma artista de multiplicidades, gosto de percorrer lugares com diversas caraterísticas e géneros de intervenção. Apesar disso, quando estou circunscrita ao espaço “atelier” onde produzo grande parte das minhas experiências artísticas, por falta de tempo e condições de o fazer de outra forma, a arquitetura acaba por ser uma própria integração espacial nas minhas obras. O atelier acaba por ser uma grande obra “casulo” penetrável. Entro no meu espaço percorrendo os limites de espacialidade que os diversos cavaletes, estiradores e objetos compõem, sentindo sempre que as fronteiras entre esses elementos e a minha circulação do corpo no espaço não estão totalmente definidas. Aproprio-me da luz e das diversas materialidades lá presentes e deixo-me atravessar rumo ao trabalho reflexivo. Alguns exemplos dessa espacialidade habitável são transportadas para a obra, como o caso da instalação Linha da memória, da site-specific Posto de vigia e da instalação A noiva.

Atelier e Fotografia de Paula Pereira

Sabemos que és uma apaixonada por viajar e que inclusivamente contas com inúmeras viagens efetuadas sozinha. Qual dessas viagens te marcou mais significativamente e porquê?

A que marcou mais foi Milão, por ter comido lá os melhores gelados da minha vida!! [risos] À parte dos gelados… Milão foi especial por diversas razões. Foi a primeira vez que tive oportunidade de realizar trabalho “mais sério” no âmbito da fotografia, para a Camera Nazionale della Moda Italiana. E não é todos os dias que se é transportado luxuosamente pela Moda Milano, juntamente com diversos fotógrafos internacionais, a todos os desfiles que aconteceram na cidade durante três dias…[risos]. Estar perante artistas criadores como Karl Lagerfeld e outros, beber de uma outra crítica cultural, encontrar gentes e lugares que de outra forma me passariam despercebidos. Além de fotografar com total liberdade artística todos aqueles eventos, não me sendo exigido da Camera Nazionale qualquer forma estereotipada de fotografia. Foi como ter a permissividade de desenhar o leão para representar a época carnavalesca no concurso escolar. À parte disso, eu tinha também programada nessas semanas a exposição coletiva dos artistas finalistas do Donkey Art Prize, dos quais eu fazia parte, na Galeria Straf ao pé da Catedral Duomo. Foi uma itinerante que iniciou em Milão e percorreu Miami, Hong Kong e Madrid. O trabalho de experimentação fotográfica que expus One light disturbed relaciona-se com o poder da visibilidade/ocultação do corpo e joga com a profundidade do espaço perante um elemento de resistência – vidro. Ainda nesta viagem tive oportunidade de conhecer imensos artistas, partilhar experiências de pintura, escultura e cerâmica na Accademia di Belle Arti de Brera. Ainda realizei no seu interior dezenas de registos fotográficos diversos que pretendiam captar jogos de luz na envolvente arquitetónica dos claustros, investigando o mesmo tema do poder da visibilidade/ocultação do corpo. Três anos mais tarde, uma dessas fotografias foi premiada na Park Art Fair na Alemanha.

Qual foi a situação mais caricata que te aconteceu em alguma dessas viagens?

Tive uma exposição na Irlanda, onde aconteceram três situações que considero caricatas, talvez não no sentido mais ridicularizado mas no sentido mais inesperado. Na primeira semana ficou combinado de ficar hospedada, por amabilidade e insistência, na casa de uma das diretoras do Museu. Era uma pessoa extremamente simples, simpática e acessível, além de uma ótima profissional. O meu voo atrasou-se bastante e cheguei a Dublin já por volta da uma da madrugada. Por meu desconhecimento, o único transporte que havia para a morada da diretora era um autocarro que estava totalmente cheio e já prestes a partir. Corri para pedir que me levasse mas o motorista não cedeu minimamente e disse que teria de esperar pelo próximo que era o das 8 da manhã. Entrei em total desespero, que disse ao motorista que tinha uma exposição já no dia seguinte e que não tinha onde dormir nem para onde ir. Uma gentil senhora dos seus 50 anos, após ouvir-me, saiu do autocarro, colocou-me a mão no ombro e disse-me “good luck for the exhibition tomorrow. Take my seat, I have a place to stay”. Eu nem sabia como agradecer, é daquelas situações que te sentes quase impotente perante tão grandioso gesto. Lá fui eu. Mas…o autocarro parou o seu percurso ainda a uns 5 km da casa da diretora. O local era rural e as casas muito distantes umas das outras. A iluminação da estrada era quase nula. Naquele momento senti muita vontade de não ter usufruído da amabilidade daquela senhora pois acabei numa situação muito pior do que estava antes… A minha irmã, preocupadíssima, não parava de me ligar. Comecei a ficar sem bateria no telemóvel. Foi então que, antes de ficar incontactável, decidi ligar à diretora (que julgou que eu já não vinha naquele dia) e ela chamou um táxi que me foi buscar. Quando cheguei, o cenário era único, um grande prado, um caminho muito estreito que tive de percorrer a pé e uma casinha lá no fundo. Não havia absolutamente nada à volta. Quando me aproximei da casa, havia duas luzes vermelhas nas laterais que iluminavam grandes gárgulas/quimeras esculpidas na pedra da fachada. Confesso que naquele momento julguei-me num cenário da idade média, especialmente quando entrei no interior da casa que se coadunava de igual forma com o exterior, com tanto de fascinante visualmente como de assustador. Não consegui adormecer… A exposição correu bem e ao final de uns dias decidi despedir-me da diretora e voltar ao centro de Dublin para me hospedar num hotel. O que eu não sabia é que aos sábados à noite não há qualquer disponibilidade nos hotéis devido à habitual frequência noturna de bares e discotecas. Corri pelas calçadas, a arrastar a mala, a bater à porta de todos os hotéis que havia, porta a porta. Disponibilidade zero. Alguns ainda facilitavam, colocando um papel na porta exterior a dizer “no rooms”. Passadas mais de duas horas a entrar em hotéis bons, péssimos, muito bons e médios, entrei num que, mais uma vez, me disse que não havia disponibilidade. Perguntei se podia ficar sentada no sofá ali no hall de entrada pois já não aguentava mais caminhar e já era noite cerrada. O funcionário olhou para a gerente que tratava de papeis mais atrás e foi falar com ela. Quando regressou, chamou-me e disse que me iam arranjar um quarto. Fiquei radiante, estava mesmo a precisar de um bom descanso e de um bom banho quente. Só quando me deram os cartões de acesso é que percebi que me cederam a suite presidencial. O elevador era privado e tinha por minha conta dois pisos inteiros…um roof top com uma vista panorâmica de Dublin, um banquete cheio de comidas e bebidas, tudo pelo preço de um quarto standard! Foi incrível. No último dia antes do voo fui almoçar numa esplanada do McDonalds. Reparei que havia muitas migalhas de pão espalhadas por diversas mesas e os pássaros estavam deliciados a debicá-las vorazmente. Estiveram ali o tempo todo enquanto comi. No final, peguei no meu diário gráfico e comecei a desenhar diferentes migalhas com lápis de cor. Eram para mim registos gráficos de memórias de quem por ali passou. No final, pousei os desenhos em cima da mesa e fui arrumar o tabuleiro para não agitar ainda mais a passarada com os meus restos de comida. Quando voltei, os pássaros batiam fortemente com os bicos no meu diário gráfico, tentando agarrar as migalhas…

Fotografia por Paula Pereira

Imagino que naturalmente sempre que viajas tenhas como referência visitar os museus locais. Qual é o museu que mais te fascinou e porquê?

Sem dúvida que conhecer museus é algo de muito interessante para mim, assim como conhecer outros locais de cultura que nem sempre são museus. O Tate Modern é um dos que me fascina bastante, talvez pela sua arquitetura mais industrial, derivada da antiga central elétrica. Quando realizo trabalhos na área do Design, desenho e produzo diversas peças que se servem precisamente de elementos industriais. É como dar uma nova vida a materiais que já estão inoperacionais nas grandes indústrias, resgatando um interesse conceptual pelas memórias e histórias. Assim como na Tate, para mim há uma deslocação dentro do próprio espaço original e uma transformação que a realização da obra envolveu. A exposição que mais interesse me despertou nesse museu, em 2008, na Turbine Hall Bridge da galeria, foi a “Tatlin’s Whisper#5” de Tania Bruguera, por destacar a política do corpo subjugada à materialização do poder e ao controlo social. Consistiu em policias trajados com as suas fardas oficiais, montados a cavalo, que irromperam no espaço e executaram técnicas de controlo de massas com os espectadores no interior da galeria.

Qual é o museu que queres visitar mas ainda não tiveste oportunidade de o fazer?

A lista seria infindável…
Em resumo, o Benesse Art Site Naoshima em Naoshima, Japão pois além de ser a céu aberto apresenta artistas contemporâneos com os quais me identifico, como Anish Kapoor e Sol LeWitt. Estes artistas também possuem obras no Gibbs Farm em Auckland, Nova Zelândia que basicamente é um museu/quinta de 4km2 (que também ainda não visitei!) com diversas esculturas criadas especificamente tendo em conta o espaço envolvente.
No Brasil gostava de contactar com as obras de Olafur Eliasson e Hélio Oiticica no Instituto Inhotim em Minas Gerais no Brasil.
Em termos mais arquitetónicos gostava de ver o Museu Zeitz de Arte Contemporânea (Zeitz MOCAA) na Cidade do Cabo na África do Sul pois considero que a reabilitação que foi feita do edifício (antigos silos de grãos) é de um design imperdível. Não desvalorizando as obras contemporâneas que o compõem no interior, especialmente as instalações suspensas.
Mas tenho outras obras de arquitetura e design que ainda gostava de ver ao vivo: Museu Soumaya na Cidade do México; Museu Dali em São Petersburgo; Museu Nacional do Qatar em Doha.

https://benesse-artsite.jp/en/
Coleção Colours de Paula Pereira

Imagina este cenário: vais apresentar uma exposição de obras tuas e podes escolher entre apresentares numa única sala muito grande ou apresentar em várias salas pequenas interligadas entre si. Qual destas duas opções escolhes e porquê?

Tudo estaria dependente de “quais” as obras a expor. Gosto que o espaço expositivo esteja em estreita partilha com a obra e esse sentido, quando não se trata de um site-specific, nem sempre é fácil. Apesar disso, imagino algumas instalações que tenho em fase de projeto, em amplos espaços minimalistas, permitindo ao público participar da linguagem comunicativa da obra com os seus próprios corpos e experimentar a complexidade das práticas artísticas. Quanto às salas interligadas, imagino mais uma espécie de “Do-it” com momentos de descoberta do visitante e interpretação instrucional ao percorrer os diversos espaços.

Em termos arquitetónicos quais são as características mais importantes para ti como anfitriã de um museu?

Um museu que escape da exatidão da reta, utilize materiais industriais, como o aço e o betão, estar pensado quanto à funcionalidade, ao conforto térmico, à luz e com um design tendente ao orgânico.

E como visitante?

As caraterísticas mantêm-se, acrescentando a conexão entre o espaço interior e exterior e a existência de salas abertas ao público para a criação de projetos, reflexão e diálogo.

Quando ouves alguém comentar uma peça artística tua fazendo uma interpretação completamente diferente daquela que idealizaste sentes necessidade de explicar ou consideras que todas as interpretações podem ser válidas?

Para responder a isso talvez seja essencial dar a conhecer a grande importância que eu dou à comunicação (entre mim e o público) por meio da obra. Na minha prática artística encaro a obra como algo que permite gerar especulações e não como um mero objeto de contemplação onde a única coisa que poderia acontecer seria um género de transferência de dados. Talvez o facto de ser artista/professora/investigadora me leve sempre para o campo do processo criativo como algo que me serve para conhecer, especular, codificar, descodificar, para (re)inventar ideias e os próprios meios. Isto para dizer que… (respondendo mais diretamente à questão) não sinto necessidade de explicar a obra porque não a encaro apenas como uma forma de auto-expressão. Ainda que o seja em parte, todas as interpretações/interações do/com o público fazem parte do processo comunicativo subjacente à obra.

Alguma vez te “infiltraste” como visitante de uma exposição tua só para poderes sentir o ambiente de quem está a assistir?

Diversas vezes tive a oportunidade de fazer isso…e fiz. Não com o sentido de separação do “artista criador” de um lado e do “público assistente” do outro, pois o meu propósito expositivo está sempre relacionado com o “desfazer” dessa conceção. Por exemplo, quando criei uma sala totalmente escura com ausência de luz e distribuí focos à entrada para que o público pudesse “ativar” as obras dentro do espaço, encarei a exposição como algo que desconstruísse a passividade recetora habitual e me “despisse”, em simultâneo, da capa do artista-génio a que as “gentes” estão habituadas a classificar. As mudanças causadas pela circulação pouco habitual dentro da sala às escuras, os murmúrios entre os desconhecidos, a surpresa mediante os desenhos que iam aparecendo ou desaparecendo mediante a maior ou menor ativação pelos focos, foram experiências sentidas tanto pelo público como por mim, em plena equidade. Por outro lado, os desafios colocados por mim como autora permitiram estimular cada um (e a mim própria) a pensar em soluções próprias, a modificar a obra, a ter o direito de a transformar.

Gostas de ler? Qual ou quais são os teus livros favoritos e porquê? Qual foi o último livro que leste?

Para mim ler é o equivalente a pintar, desenhar, fotografar, performar, esculpir, etc. Isso significa que a leitura também ocupa uma parte bastante significativa do meu tempo diário e permite-me fazer conexões muito significativas para a minha vida. Não consigo descrever livros favoritos pois, para mim, são todos os que me permitem ir mais além do meu conhecimento ou os que me desconcertam de tal forma que me fazem relê-los vezes sem conta! Dos primeiros fazem parte, geralmente, os livros de investigação artística, mas também posso incluir os de conhecimento geral ou até os mais romanceados como “Um amor em tempos de Guerra” do Júlio Magalhães. Dos segundos, aponto por exemplo Lipovetsky “Agradar e Tocar: ensaio sobre a sociedade da sedução” ou McLuhan “Understanding media. The extensions of man”.

Agradar e Tocar: ensaio sobre a sociedade da sedução eBook de Gilles  Lipovetsky - 9789724422589 | Rakuten Kobo Portugal
Understanding Media eBook by Marshall McLuhan - 9781584235125 | Rakuten  Kobo United States

Quais são as tuas bandas de música favoritas? O que tens andado mais a ouvir ultimamente?

Neste campo prefiro não me subjugar ao que está na moda e o que me agrada ouvir tem sempre um género de…cumplicidade artística, digamos. Há algo na música que me transporta e me desperta para uma dimensão mais subjetiva e é mesmo isso que me agrada. Poder ouvir tanto Leonard Cohen, como NBC e Mundo Segundo, Metallica ou até a Bárbara Tinoco ou a Deolinda (são alguns dos que às vezes ouço) e sentir a música como se o meu corpo ganhasse independência e fosse trespassado por outras forças que me deixam marcas que já não dependem da minha vontade ou do meu ouvido. É nesta cumplicidade artística que muitas vezes ouço a música, na dimensão dos sonhos, das sensações, do território da imaginação e criatividade. Às vezes dou por mim a pensar que o autor daquela música nunca poderia imaginar que eu, no outro lado do mundo, a iria ouvir e apreciar tanto… e é essa ligação improvável que torna tudo tão mais interessante.

Qual foi o último filme que assististe que consideraste muito bom? Porquê?

Talvez não tenha sido o último que assisti, mas “Never Look Away”, do alemão Florian Henckel von Donnersmarck é um filme que considero extremamente interessante, tanto pela inspiração em factos reais, como pelo jogo diabólico que é produzido durante o seu enredo que acerca o significado da arte.

Pergunta de dilema: Preferias ver o mundo a preto e branco desde sempre e para sempre ou só poder usar preto e branco em todos os teus trabalhos desde sempre e para sempre? Justifica a tua opção.

Admito que esta questão me engavetou numa ampliada dificuldade em descobrir qual dos lados seria mais conveniente e qual dos lados seria mais eloquente. Porque é indizível o que poderia sentir, ou que imensas possibilidades estariam em aberto. Não tomarei lados. Em ambas as situações, sobre as quais tão pouco sei, poderei tentar esboçar, todavia, que um mundo apenas a preto e branco me traria uma outra liberdade visual. Poderia permitir-me estabelecer novos sentidos do que já está culturalmente enraizado e, quem sabe, ver a representatividade do mundo por uma nova e reduzida paleta de tons, às vezes tão necessária para acalmar a cegueira da atual sociedade. Por outro lado, usar apenas o preto e o branco nos meus trabalhos artísticos poderia traduzir-se no assumir uma forma de resistência, onde a certeza da utilização das duas cores ora isoladas, ora combinadas, contrastariam com a incerteza que se tornou tão omnipresente hoje em dia.


Obrigada por esta bonita conversa, pela tua abertura e por nos teres proporcionado tanto conteúdo interessante, diversificado e até muito bem-disposto conseguindo mesmo arrancar por diversas vezes risos e sorrisos.

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[ Filme ] [ Jogo ]

Twelve Minutes

Já nem sei muito bem como descobri o “Twelve Minutes”, e digo “o” porque quando descobri achei primeiramente que ele era uma curta metragem que utilizava um cenário com vista de topo e em 3D, do interior de uma habitação. Ora, se assim fosse, estavam para mim reunidas as características de algo muito interessante, podendo a história ser melhor ou pior do que a expectativa que se poderia ter mas, no entanto, antes se quer de saber mais, seria já um caso daqueles muito desafiantes em que se utilizaria apenas um cenário para se contar uma história, e ainda por cima, uma história como aquelas que contamos na PORMIN todos os dias e num cenário que poderia ser um dos nossos, dado aquela perspectiva nos ser tão familiar.

Mas a verdade é que, quando procurei saber mais, descobri que Twelve Minutes não se tratava de uma curta-metragem mas sim de um jogo. Foi então que, por breves segundos fiquei no limite de quase me desinteressar, até pela distância a aquelas épocas de jogar jogos de computador e consola. Apesar desse pensamento de milésimas de segundo, rapidamente me lembrei da industria gigantesca a que os jogos pertencem e que, muitos deles derivam de livros, outros derivam em livros e na sua generalidade, hoje em dia, são verdadeiras produções cinematográficas e que inclusivamente derivam também mais tarde em filmes. Foi então neste ponto que decidi continuar a saber mais, até porque agora já começava a ficar com curiosidade para saber de que se trata a história. “Twelve Minutes” ou doze minutos é um thriller interactivo sobre um homem preso num loop temporal.

Quanto mais sabia sobre este (afinal) jogo mais gostava. Qualquer coisa que possua como conteúdo viagens no tempo, trocadilhos espaço-tempo e loops temporais são assuntos que quase me fazem deixar de ouvir tudo o resto. Mas as surpresas continuaram a aparecer quase sem querer. Twelve Minutes é um jogo criado pelo português Luís António e conta com as vozes de actores tão grandes como: James Mcavoy, Daisy Ridley e Willem Dafoe.

Com tudo isto, não sei se quero jogar por querer ver o filme ou se quero ver o filme para o poder jogar e ser uma das personagens.

Ok, fecha os olhos.
Eu quero que penses numa flor.
Olha para os seus contornos, para as suas curvas.
Agora eu quero que a imagines: a mudar,
A retroceder até voltar a ser um rebento.
Pensa nesse rebento, ainda por abrir.
Olha para ele como um todo,
E silenciosamente repete estas frases:
“Que sejas livre de sofrimento.”
“Que sejas livre de medo.”
“Que conheças paz e alegria.”

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[ Arquitectura ] [ Viagem ]

A Cidade da Cultura da Galiza

Um de entre muitos dos prazeres de viver no Norte de Portugal é inevitavelmente a proximidade a Espanha. A região autónoma da Galiza, até talvez pela própria geografia, funciona para os nortenhos como quase uma verdadeira extensão do Minho, com o acréscimo de se poderem aliar diferentes experiências e regalias da própria cultura espanhola. É com esse privilégio que, a apenas duas horas de carro de Viana do Castelo, se consegue chegar à capital da Galiza, a cidade de Santiago de Compostela e, é precisamente ainda a efetuar-se o acesso à cidade que se descobre ao longe, uma grande extensão de paisagem maioritariamente de cor clara em contraste com as cores de uma montanha, quase se assemelhando a uma pedreira. Essa montanha trata-se do Monte Gaiás e nele encontra-se o título deste artigo, a Cidade da Cultura da Galiza.

Idealizada pelo arquitecto americano Peter Eisenman, que ganhou o concurso internacional de arquitectura lançado em 1999 pela Junta da Galiza com um programa definido para a realização de um museu, uma biblioteca e espaços de espetáculos, Eisenman projectou seis edifícios concebidos em três pares: o museu da Galiza e o centro de arte internacional, a biblioteca da Galiza e o arquivo e, um teatro musical e um centro para a inovação cultural. O complexo ainda se encontra a em fase de construção, possuindo quatro desses edifícios já concluídos e em uso. O arquitecto Peter Eisenman, para além dessa formação, é também doutorado em Filosofia, e a verdade é que depois de se saber isso, quando se começa a estudar o seu estilo e as suas obras, essas influências sobressaem. A sua obra descreve-se geralmente como caracterizada pelo desconstrutivismo e pelo seu interesse pelos signos, símbolos e processos significação. Peter Eisenman afirma que a sua arquitectura…

Trata-se de interromper qualquer comunicação e situar dentro da própria arquitectura um dispositivo que faz com que a pessoa reaja de forma emocional, física e intelectual. Sem representação. A minha arquitectura não significa nada. Mas a experiência é outra coisa.

Peter Eisenman sobre o seu significado de arquitectura.

E a verdade é que, presenciando a Cidade da Cultura da Galiza, e lendo depois essa sua descrição, aquilo que se consegue afirmar é que o seu propósito foi efectivamente conseguido.

fotografia de eisenmanarchitects.com

A complexidade e multiplicidade de soluções presentes é tal que, assim que se entra dentro de um dos edifícios, os panos que fazem as fachadas exteriores, pelo lado interior parecem uma fachada completamente diferente. Para além disso, verifica-se quase sempre um segundo pano interior com uma estereotomia diferente criando a sensação da quase existência de um novo edifício, dentro do edifício da casca exterior. A heterogeneidade da relação entre formas curvilíneas e rectas, bem como a irreverência de alinhamentos e inclinações é tal que, se entende logo à partida que não existe um metro quadrado igual em todos os edifícios que, com a envolvente ocupam uma intervenção de 141.800 metros quadrados. Estar na Cidade da Cultura da Galiza, no exterior ou no interior de qualquer um dos edifícios, significa ter-se a constante sensação de se ficar imerso em diferentes estímulos, de todo o género e forma, e de serem tantos que não se conseguem absorver e processar todos. Este facto faz com que qualquer visitante tenha vontade de lá voltar, para poder ver mais, mais pormenores, sentir mais coisas diferentes, experimentar mais perspectivas diferentes e aliar a tudo isso ainda os eventos culturais, artísticos e as constantes exposições. Quando nós visitamos pudemos ver exposições de arte e uma exposição sobre “Cinema e Emoções, Uma Viagem à Infância”.

Mas deste complexo cultural, não se deve apenas particularizar os seus edifícios, mas também realçar os arranjos exteriores que revelam harmonias com jardins cuidados de plantações nativas da região da Galiza, e até mesmo, um lago e jardins literários que servem também de casa a várias espécies de animais. Aqui, não falta o que fazer, experimentar, ver e sentir. A única coisa que falta é mesmo poder desligar o botão do tempo para se poder apreciar todos os detalhes e pormenores.

Algumas fotografias da nossa visita

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Normal People

A realidade é sempre mais difícil de contar. Esta frase pode parecer logo à partida um contra-senso uma vez que, da realidade apenas se teria de a retratar, sem aparentemente ser necessária qualquer criatividade. Na verdade, julgo que pensar-se isso não poderia ser mais errado. Se percorrermos a nossa memória, mesmo quando se faz um filme ou uma série sobre factos verídicos, parece existir sempre uma tendência para puxar determinado lado, seja ele mais cómico, mais dramático, mais romântico, ou outro qualquer estilo até porque, como se costuma dizer, “quem conta um conto acrescenta um ponto”, e parece mesmo ser quase inevitável isso acontecer, não de forma propositada, mas como se existisse um constante íman a tentar puxar para algum desses lados, quer pelo nosso gosto pessoal e estilo, quer pela própria percepção inicial da história que foi contada antes de sermos nós a contá-la. Ora, mas se esse exercício parece ser muito exigente, o de se tentar fugir constantemente a esse íman de tendência, imaginemos então quando a história é fictícia e pretendemos contá-la de forma tão real e ajustada à realidade. Isto foi o que aconteceu precisamente nesta série que possuí apenas uma temporada de doze episódios e baseia-se no livro com o mesmo nome, escrito pela irlandesa Sally Rooney. Normal People é uma série extremamente crua mas muito bonita pela sua história sincera e até tão simples, que nos faz sentir que facilmente seríamos uma das personagens. A realidade é inevitavelmente mais crua que o mundo cinematográfico, mas o que torna esta história tão especial é precisamente esse facto, pois conseguimos facilmente criar empatia com a história sem necessitar de terem sido criadas caricaturas, nem recorrer a excessos visuais ou sonoros.

Depois de ter visto a série completa, fiz o exercício de pensar em como contaria a história de toda a série a alguém (não, não, não se preocupem aqui não somos spoilers, podem continuar a ler). A conclusão a que cheguei foi que na verdade daria aparentemente uma história pouco interessante, podendo até ser uma história comum a quem a conta e a quem a ouve. Mas então o que é que faz desta série tão particular e por isso especial? E a resposta revela-se na surpresa de se verificar que uma história simples e aparentemente banal, zelando por não possuir grandes truques, nos faz relacionar tanto com ela, transportando-nos para uma variedade de emoções que causam quase sempre até um certo desconforto e estranheza, tendo um tema que sobressai constantemente, a importância da comunicação e o reflexo da falta dela. Outra das características mais marcantes desta série são os silêncios que se assumem sem medo e os diálogos constrangidos que são tão facilmente projectados para o nosso dia a dia (mesmo que possam ser sobre outro tema qualquer).

Dito isto, e se ainda faltassem argumentos para se aventurarem, resta-me dizer-vos que, não fomos apenas nós que gostamos desta série, Normal People encontra-se nomeada para os Emmys na categoria de:
– Melhor Direcção de Série Limitada, Filme ou Drama Especial
– Melhor Roteiro de Série Limitada, Filme ou Drama Especial
– Melhor Ator Principal de Série Limitada ou Filme
– Melhor Casting para Série Limitada, Filme ou Especial

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[ Música ]

Lubomyr Melnyk

“… não parece efectivamente fazer parte deste tempo e nem o consigo considerar propriamente humano…”

Lubomyr Melnyk – Barcarolle
Fotografia de Alex Kozobolis (em erasedtapes)

A fracção de tempo em que vivemos parece não merecer a sorte da coexistência com alguns seres. Um deles é Lubomyr Melnyk. O nome dele escrito, raramente não aparece como um erro ortográfico ou de desconhecido no dicionário. À primeira vista, poder-se-ia até ter a tentação de justificar esse facto por ser um nome de nacionalidade ucraniana, mas também quantos nomes estrangeiros já não pertencem a um quase dicionário universal?! A verdade é que se assim não fosse passaríamos a poder nos apropriar dele, na nossa fracção tempo. E ainda bem que não podemos, pois é importante termos a consciência que de facto Lubomyr Melnyk não parece efectivamente fazer parte deste tempo e nem o consigo considerar propriamente humano. Mas se até aqui pudesse ser difícil imaginar o porquê de tudo isto, mesmo depois de se ouvir a sua estonteante e talentosa música, o que nos parece praticamente impossível de acontecer, como se costuma dizer “contra factos não há argumentos” e então vejamos:

– Lubomyr é conhecido pela sua característica técnica de música contínua que se baseia numa execução de notas rápidas e séries de notas altamente complexas normalmente utilizando o pedal de sustentação;

– Lubomyr consegue tocar 19,5 notas diferentes por segundo com cada mão (recorde registado);

– Lubomyr consegue tocar entre 13 a 14 notas por segundo durante 1 hora (recorde registado).

Mas se toda esta demonstração de elevada técnica o torna tão especial e surreal, o que faz dele ser de outro mundo é a combinação dessas características com o seu sentido estético, de harmonia e de conseguir criar na sua música histórias com tantas sensações e emoções.

Fotografia de erasedtapes.com

Lubomyr nasceu na Ucrânia em 1948 e depois de estudar piano clássico e se ter formado em Filosofia e Latim no Canadá, em 1970 Melnyk foi para Paris, onde se viu sem casa e desesperado para conseguir uma fonte de rendimento. Foi então neste ponto que Lubomyr começou a acompanhar musicalmente as aulas de dança da companhia da coreógrafa experimental Carolyn Carlson. Essa experiência de poder ver os dançarinos de Carolyn arrebatou-o como uma epifania e começou a tocar um novo tipo de música, mais espontânea e de improvisação distanciando-se assim das convenções clássicas mais rígidas. Utilizando o pedal de sustentação para criar eco e reverberação Melnyk conseguiu transformar cascatas de notas livres em ondas de som hipnotizantes. Foi então neste ponto que Lubomyr encontrou um nome para este novo estilo: “música contínua”, que ele usa até ao dia de hoje.

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[ Música ] [ Passatempo ]

Concerto de Mário Laginha e Camané

“Aqui está-se sossegado” em Viana do Castelo

Passatempo termina em:

Por isso, só tens até dia 11 de Outubro de 2020 para concorreres.

Não é todos os dias que se pode ver um concerto de Mário Laginha e Camané, sentados de forma cómoda, na melhor fila e numa das salas mais bonitas do país. Esta é a tua oportunidade, estamos a oferecer 2 bilhetes para assistires a este concerto.

O que preciso de fazer para concorrer?

– gostar da nossa página de facebook aqui
– comentares a publicação respondendo à pergunta “Qual é o local onde te sentes mais sossegado?”
– partilhar a publicação do passatempo

Como sei se ganhei?

Quem possuir os três requisitos mencionados vamos efectuar um sorteio no dia 12 de Outubro de 2020 (o dia a seguir a terminar o passatempo) pelo que, divulgaremos o vencedor e entraremos em contacto por mensagem para enviarmos os bilhetes via e-mail ou serem dadas as instruções para levantamento dos bilhetes no nosso atelier.

Data e horário do Espectáculo:

Dia 18 de Outubro de 2020 às 21h30
Aparece um pouco antes para estacionares e beberes um “chazinho” no Café Concerto do Teatro Sá de Miranda.

Localização da Sala de Espectáculo:

Teatro Municipal Sá de Miranda
Rua de Sá de Miranda 49, 4900-529 Viana do Castelo

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[ Séries ]

Hunters

[ Este artigo é isento de spoilers e por isso pode ser consumido sem provocar qualquer reacção alérgica ]

Diz-se que há acontecimentos que são cíclicos na história mundial, e a verdade é que se pensarmos bem, por mais que se lute contra esse facto, o ser humano, infelizmente não consegue eliminar completamente características que acabam por degenerar nas maiores atrocidades do ser humano. Um desses casos que mais facilmente nos vem ao pensamento é o Holocausto na Segunda Guerra Mundial. Esta série americana, que estreou em fevereiro de 2020 na Amazon Prime, parte da seguinte premissa: “E se estivessem secretamente a preparar o aparecimento de um Quarto Reich?”.

Com apenas uma temporada, mas já com a segunda temporada confirmada, esta série caracteriza-se por um grande enredo e encontra-se recheada de muitos pormenores e detalhes nos diálogos que, tenho a certeza, te vão surpreender com humor, emoção, espanto e reflexão. Podendo esta considerar-se uma série de época, os cenários, adereços e cores utilizadas estão bem conseguidos percebendo-se esse facto até em detalhes como o tipo de transições consideradas ao estilo da época. Para além de tudo isto, e se argumentos ainda faltassem, a banda sonora está bem escolhida, é uma série com o actor Al Pacino e tem uma das coisas mais difíceis de encontrar hoje em dia, que é o facto de “não fazer a papinha toda” a quem está a ver e obrigar a um certo grau de atenção e raciocínio, o que acaba até por surgir com naturalidade pois a série cativa e prende-nos a esse exercício com entusiasmo.

Quem nos recomendou esta série foi a irmã de um de nós e todos sabemos como os irmãos têm imenso bom gosto 🙂

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[ Livros ] [ Receitas ]

O que é que a Bertrand e o Stroganoff têm em comum?

A livraria mais antiga do mundo tem uma belíssima revista literária e sucede que… é gratuita. A revista da Bertrand chama-se “Somos Livros” e, para além de ter uma impressão cuidada com a junção perfeita entre textura de papel, cores e design adequado ao seu propósito, está recheada de artigos interessantes, entrevistas e sugestões de livros para os amantes do mais fascinante objecto e para todos os gostos. Eu passo praticamente todos os dias por uma Livraria Bertrand e mesmo que passe por ela até mais do que uma vez por dia em nenhuma dessas vezes consigo deixar de virar o pescoço e parar a admirar, sendo que muitas dessas vezes acabo mesmo por não resistir e entrar. Mas, quando de uma dessas vezes vejo ao longe que os livreiros puseram a revista Somos Livros para os seus fãs e clientes poderem levar a minha passada meio que acelera no entusiasmo de ter a nova revista da Bertrand.

O exemplar mais recente que me fez escrever este artigo é o referente ao catálogo de verão 2020 e para além do fantástico conteúdo que tem, nas últimas páginas disponibiliza umas receitas culinárias. Não andará muito longe se dissermos com grande convicção que a probabilidade de uma pessoa ver pelo menos uma receita culinária por dia em algum lugar é muito grande, mas já que estamos a falar em probabilidade, também será muito preciso se dissermos que a probabilidade de executarmos alguma dessas receitas é bastante baixa. Tirando quando a receita demonstra logo à partida um imenso charme, com uma apresentação visual extremamente bonita e elegante e ainda por cima nos cativa com os seus ingredientes.

Foi isso que aconteceu com a receita de Stroganoff de Cogumelos da Bertrand, não resistimos e tivemos de a executar e a conclusão foi que é tão deliciosa que passou directamente para o livro das nossas receitas favoritas, escritas à mão no nosso caderno ultra restrito das melhores receitas do mundo. E agora, depois de tudo isto, só vos posso deixar aqui duas coisas: uma recomendação e a receita que acabei por renomear de Stroganoff da Bertrand.

Fiquem atentos à Revista Literária da Bertrand “Somos Livros”.

Receita de Stroganoff de Cogumelos da Bertrand

Ingredientes (2 pessoas)

– 400g de cogumelos variados
– 1 cebola roxa
– 2 dentes de alho
– 4 pés de salsa
– 1 colher de sopa de alcaparras baby
– 50 mL de uísque
– 80g de crème fraîche meio-gordo
– cebolinhas em picles qb
– cornichons em picles qb
– azeite qb
– paprica em especiaria qb
– pimenta-preta qb
– sal marinho qb

Para acompanhamento:
– arroz branco solto
– salada da época

Preparação

1. Prepare tudo antes de começar a cozinhar: arranje os cogumelos, partindo os maiores e deixando os mais pequenos inteiros, descasque a cebola e os dentes de alho e lamine tudo finamente. Pique grosseiramente as folhas de salsa e corte finamente os talos.

2. Coloque uma frigideira antiaderente grande em lume forte, adicione os cogumelos e a cebola, agite para acomodar tudo numa camada única e deixe grelhar, sem gordura, durante 5 minutos, mexendo com frequência. Regue com 1 colher de sopa de azeite e adicione o alho, as cebolas em picles, os cornichons, os talos de salsa e as alcaparras.

3. Ao fim de 30 minutos, verta o uísque, incline a frigideira com cuidado para flamejar ou pegue-lhe fogo com um fósforo longo (tenha atenção às sobrancelhas!) e, quando a chama se extinguir, adicione 1/4 de colher de chá de paprica, o crème fraîche e a salsa, e envolva tudo muito bem. Deslasse com um pouco de água a ferver para obter uma consistência suculenta e tempere a gosto com sal marinho e pimenta-preta.

4. Distribua pelos pratos, polvilhe com um pouco de paprica e sirva com arroz solto. Fica muito bem acompanhado também com uma salada da época.

Esperamos que gostem tanto quanto nós, mas para ser perfeito só mesmo executar esta receita numa cozinha criada por nós 😄.

nogueira.
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[ Música ]

Spotify

A música é a arte que talvez mais facilmente influencie o nosso estado de espírito. Esta é para nós uma ferramenta imprescindível de criação e por isso, ao ouvires a nossa playlist é como se estivesses connosco na nossa sala de trabalho no Atelier.

Todas as semanas vamos descobrindo novas músicas e novos artistas que vamos adicionando constantemente à nossa playlist para nós próprios ouvirmos e para agora também vocês poderem ouvir connosco e assim, já não seremos nós os únicos a dançar em frente ao computador, a assobiar a melodia principal, a tocar no ar na nossa bateria imaginária ou até mesmo a emitir sons aleatórios que na nossa cabeça soam a perfeitas notas afinadas.

E agora tu também podes fazer tudo isso connosco.